"E o menor deles disse ao seu pai..." Lucas 15:12
Tinha apenas 25 anos, mas passaria o resto de sua vida envelhecendo lentamente naquela cela fria. Todo mundo o conhecia pelo apelido de Baiano. Sua fama de delinquente violente e perigoso estava bem fundamentada em sete assassinatos. Somente dentro da prisão já havia matadoà dois presos. Estava condenado a 40 anos de prisão, e tinha outros sete casos pendentes, o que o deixava com a mínima esperança de sair livre algum dia.
Quando falou comigo, seus olhos brilhavam, tratando de esconder a emoção que sentia em seu coração. Ali estava um homem duro, agora arrasado pelos seus sentimentos.
- Pastor, ore pela minha mãe - me disse-. Ela é uma crente, acrescentou. Eu gostaria de voltar a ser um jovem. Acho que começaria tudo de novo e as coisas seriam diferentes.
Você já percebeu que quando se é jovem, se tem a impressão que a juventude não vai terminar nunca? Que parece que as oportunidades sao eternas? Que a energia , a saúde,e a força estarão sempre a nossa disposição? "Basta dar um grito, extender a mão, e eles virão correndo", pensamos. Mas o tempo nos mostra dolorosamente que não é assim, e que essa etapa da vida vai e não volta nunca mais.
Na parábola do filho pródigo, o Senhor Jesus aponta " e o menor deles", tratando de mostrar-nos de alguma maneira a importância das decisões nessa época da vida.
Existe, no coração humano, um sentimento que durante a juventude se acentua, levando-nos às vezes a busca permanente e sem sentido. É o desejo pela liberdade. "Quero ser livre!", clama o coração do jovem. "Nada de barreiras nem proibições. Quero uma terra sem fronteiras."
O jovem quer conhecer e provar de tudo. Às vezes basta com que alguém diga "não toque isto" para que ele queira se entregar com mais ansiedade as águas fascinantes do desconhecido. Se alguém diz que as drogas o estragarão, o jovem não aceita. "Por que?" - pergunta-. Quero provar eu mesmo. Como vou saber se me faz mal se nunca provei? "Milhares de pessoas morrem anualmente vítimas de câncer nos pulmões. Nao é necessário ser religioso para saber que o tabaco acaba com a saúde, mas o jovem pergunta: "como vou saber que o cigarro faz mal se nunca me deixaram prová-lo?"
De repente todas as atrações do mundo parecem irresistíveis. Lá fora não existe discriminação, não existe moral. "Tudo depende da cabeça de cada um", dizem os defensores da vida sem compromisso. "Sexo antes do casamento? Nao há nada de mal nisso. Nao foi Deus quem criou o sexo?
O amor é maravilhoso! O que não se deve fazer é sair com uma menina diferente a cada semana, mas se a menina é a sua única namorada, qual é o problema?"
"O cinema? Por que não? Existem cinemas aonde a reverência é melhor que em muitas igrejas. O filme? Isso nao é problema; escolha um filme bom. E a bebida? O que tem de tão ruim? É só não exagerar. Um pouco socialmente não tem nada de mal; o que se tem que cuidar é de não cair no vício e se transformar num alcólatra."
Não é mais ou menos assim que racionalizamos? " Por que viver angustiados, cheios de proibições? Deixa essa idéia de cristianismo; a religião te transforma em uma máscara, ou um disfarce. Deixa isso pros velhos, primeiro vive a vida. Depois que você tenha conhecido e experimentado tudo, você pensa em Deus.
Foi isso que aconteceu com o filho da parábola. Um dia confundiu as coisas e pensou que o pai cortaria sua liberade, que o pai queria mante-lo sempre subjulgado e sem personalidade. E então pensou: "chega de normas e regulamentos, eu quero ser livre."
Quanta razão tinha Jesus quando disse "e o menor"! As estatísticas mostram que a maioria dos que abandonam a igreja, o fazem entre as idades de 12 a 18 anos, ou seja, sempre são os "mais jovens" da parábola. Mas isso não tem a ver somente com a idade física; tem a ver também com a idade espiritual. Existem pessoas que aceitam Jesus e a Sua igreja com um entusiasmo incrível e logo nos primeiros anos do seu crescimento espiritual, sentem o desejo de "tornar-se livres" de viver "sem os limites que a igreja impõe" sem proibições e sem normas. Por que isso acontece? Claramente, porque confundimos o cristianismo, porque pensamos que ser cristão é apenas deixar de fazer as coisas más e começar a fazer coisas boas. Nos esquecemos que a obediência sem uma boa relação pai-filho não têm nenhum valor. Então deixamos de amá-lo como um Pai de amor e começamos a servi-lo como um ditator. Deixamos de ser filhos e viramos escravos.
No começo da nossa experiência cristã, mesmo não existindo tal relação, ainda assim, com um pouco de força de vontade e domínio próprio, conseguimos cumprir todas as coisas. Mas com o decorrer do tempo, começamos a sentir o peso das normas, que sem Cristo não têm vida. Viver sem Cristo, atormentados por observar, sem ajuda, um padrão de vida que nós mesmos temos ecolhidos, produz uma frustração interior. Então nos perguntamos: "Aonde está a bendida paz que tanto falam?" Além do mais, sentimos a pressão externa devido a nossa força de fé. Os amigos e os familiares nos dão as costas, e muitas vezes dão risada de nós. Por outro lado, sentimos também a pressão interna, produto da exigência que nós fazemos de viver por nós mesmos a altura dos princípios que conhecemos.
Chega um momento nesse tipo de experiência cristã, quando Deus passa a ocupar o último lugar. Primeiro é a igreja, as normas, as coisas que podemos e que não podemos fazer, e não sobra tempo para Cristo. Estamos tão preocupados em fazer coisas para Ele, que nos esquecemos de parar e conversar com Ele, de nos relacionarmos a cada minuto, e enriquecer nossa comunhão com Ele.
Essa maneira de encarar a vida cristiã nos leva, finalmente, a conclusão de que a única coisa que o cristianismo fez foi cortar a nossa liberdade. Então nos transformamos em cristãos somente para cumprir as coisas e não para nos deleitarmos do companheirismo com Jesus.
Dalí a querer voltar a "terra da liberdade" é só um passo. E qualquer motivo será o pretexto que nos faltava. Se alguém nos olhou diferente, ou não nos cumprimentou, ou falou mal do nosso trabalho; qualquer coisa, por mínima que seja, será motivo suficiente para quebrar nossa relação com a igreja, porque nossa relação com Cristo já havia acabado faz muito tempo. Ninguém abandona Jesus de um hora pra outra. Isso é um processo lento e doloroso. É um processo que inclui sofrimento e lágrimas. Primeiro, frustração porque não conseguimos cumprir o que se esperava de nós, depois remorso, desespero, novas tentativas sem sucesso, e finalmente o abandono da igreja e o vazio da alma.
O que aconteceu com o filho menor da parábola? Juntou suas coisas e partiu, sem que ninguém soubesse? Ou procurou o pai antes para ter um diálogo aberto e sem rodeios? Qual foi a atitude do pai? Como Deus nos trata quando questionamos sua autoridade? Veja na semana que vem...
http://www.ministeriobullon.com/portugues/colunas/salsa/coluna11.htm
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